Textos e Documentos

NADA DEVE PARECER IMPOSSIVEL DE SER MUDADO

 

 

A mais perversa armadilha da alienação é acreditar que “sempre foi assim’’ e, portanto” sempre será assim”. A consciência imediata, presa à particularidade da época em que vive, tende a transformar em naturalidade os contextos sócias, culturais e históricos, justificando a inevitabilidade das formas sociais estabelecidas. Por esse motivo, o estudo da história é subversivo, é revolucionário, por que serve ao desmascaramento das ideologias, porque, ao inserirem os contextos particulares em sua história, desvelamos sua pretensões de universalidade.

Quando somos capazes de compreender nossa sociedade como parte da história, podemos compreender o processo pelo qual ela se tornou o que é e, dessa maneira, tentar entender o movimento que conduz à possibilidade de superação da sociedade capitalista e da emancipação humana. Eduardo Galeano, em seu magistral livro Dias e noites de amor à guerra, afirma que nosso sistema odeia tudo que é novo e é por isso que, nas ditaduras que sangraram a América Latina, a história estava proibida, porque insistia em nascer todo dia renovada, assim como os jovens; por isso , a juventude e a história estavam proibidas.

Nós, que queremos mudar o mundo, temos de libertar a história, por que ela está aprisionada por um discurso que a nega.

“A história acabou, a verdade não mais existe, o passado não explica o presente”, gritam todos os matizes pós-modernos que nada mais fazem que reapresentar os velhos motivos que levaram Marx a ironizar o pensamento burguês de sua época afirmando que para aqueles senhores “ houve história, mas não há mais” . A burguesia reorganizou a história para justificar o capitalismo como forma final da sociedade humana, de forma que todas as épocas nada mais são que passos para se chegar na catástrofe atual elevada à condição de única alternativa possível.

            Libertar a história significa deixar que os silêncios falem, mas não para que construamos um outro discurso que reorganize o que passou. Toda leitura da história significa um posicionamento aberto a uma determinada escolha de futuro. Marx, por exemplo, ao apontar para a possibilidade da emancipação humana em uma sociedade sem classes e sem Estado, só pôde considerar essa odisséia até aqui realizada como a “pré-história da humanidade”.

O pensamento pós-moderno faz do elogio à descontinuidade, à fragmentação, e da crítica às visões teleológicas o alicerce para tentar destruir qualquer visão de totalidade, qualquer sentido na história. No entanto, essa visão “desconstrutura de verdades” também parte de uma posição diante do futuro que nada mais é que a eternização do presente. Essa particular visão de história corresponde perfeitamente àquilo que Mészáros chamou de incontrolabilidade do sociometabolismo do capital, isto é, a sociedade capitalista é fundada em um metabolismo incontrolável, estranhado, no qual o mundo das mercadorias domina seus produtores. Fundada em um tipo de controle incontrolável, a sociedade capitalista produziu em sua consciência social as metáforas de um processo que foge ao controle de seus produtores e os domina como o Espírito Absoluto, Hegel, ou a Mão Invisível, de Adam Smith.

No caso da história, nada mais adequado que imaginar uma aleatoriedade que foge a qualquer compreensão, que bóia sem sentido e sem direção carregando os seres humanos sem que estes possam decidir seus destinos e produzir rupturas e revoluções. Estamos diante de uma nova e mais sofisticadas reapresentação do mesmo princípio ideológico da máxima “sempre foi, sempre será”. Anteriormente, a história era apresentada como linearidade progressiva e positivista, que, através de etapas, nos levou até o capitalismo; agora, se metamorfoseia de uma eterna aleatoriedade, em um presentismo insuperável, em não-história.

            Essa diferença representa apenas dois momentos do ser de classe da burguesia: o primeiro, no qual a burguesia se apresentava como classe revolucionária e necessitava de uma história com um determinado sentido; agora, precisa urgentemente que a história pare na atual forma e mantenha e justifique seu regime de dominação. Houve história, mas não há mais história.

            È nesse sentido que a publicação de A história do Socialismo e das Lutas Sociais, de Marx Beer, pela coleção “Assim lutam os Povos”, da Expressão Popular, é uma resposta necessária e urgente. Este livro foi importantíssimo para toda uma geração de militantes que abriram seus olhos para uma determinada leitura da história, qua através de suas páginas desvelaram os preconceitos ideológicos e reencontraram na lutas de todos os oprimidos nossa própiras lutas.

            Podemos encontrar um bom exemplo deste fato nesse singelo depoimento de Antonio Candido:

 

“Como exemplo, tomo a leitura que talvez tenha decidido n adolescência a minha inclinação para o lado do socialismo e funcionou como faísca que ateia o fogo: a modesta e possivelmente hoje esquecida História do socialismo e das lutas sociais, de Marx Beer, dois volumes publicados em retradução do francês por Edições Cultural Contemporânea, editora de esquerda que fundida literatura radical nos anos de 1930. Isso foi em 1934, quando eu tinha 16 anos e estava no ginásio”.

 

Uma faísca que ateia fogo é uma boa definição desta obra que o leitor tem em mãos. A sua reedição neste momento contribuí para que ela não seja esquecida, como lamentava Antonio Candido, para que possa incendiar outras consciências. O mesmo pode ser visto nas palavras de Celso Furtado ao se referir no impacto que teve a obra de Beer em sua formação:

 

“Meu ateísmo, que cristalizara desde os 13 anos, encontrou aí uma fonte de justificação e um motivo de orgulho. A segunda linha de influência vem de Marx, como subproduto de meu interesse pela História. Foi lendo a História do socialismo e das lutas sociais, de Max Beer, que me dei conta pela primeira vez que a busca de um sentido para a história era uma atividade intelectual perfeitamente válida”.

 

Vivemos em um tempo em que o pensamento acadêmico só pode ver com profundo preconceito uma afirmação como a de Celso Furtado, segundo a qual a busca de um sentido para a história é uma atividade intelectual válida. No entanto, a busca de compreensão do sentido da história recorrente e linear, que explicaria mecanicamente o presente; muito menos a rendição ao idealismo de uma meta ideal de uma essência humana a ser reencontrada, como na perspectiva hegeliana.

            È verdade que o pensamento marxista não passou incólume pelas influências do positivismo, como bem nos alerta os trabalhos de Michel Lowy, e, por vezes, nos rendemos a linearidades mecânicas que apenas mudavam o conteúdo e a finalidade. Encadeávamos modos de produção como uma sucessão de capítulos de uma história escrita por um sujeito transcendente em uma visão muito pouca dialética, cujo final, inevitavelmente, seria o socialismo redentor.

            O livro de Beer é parte dessa tradição e dever ser compreendido criticamente; no entanto, seu efeito didático e seu impacto pelas informações que nos traz ainda funcionam como aquela faísca que um dia despertou Antonio Candido.

 Alguns leitores desta obra – que navega, nas próprias palavras de Candido, na história dos movimentos igualitários, desde as raízes na Antiguidade, mostrando em seguida a ocorrência, na Idade Média, do sentimento de justiça social em que religiosos inconformados, como Joaquim de Flora, e, no Renascimento, de utopias como Thomas More e Campanella, até chegar ao socialismo, no século 19, com destaque para Marx-podem chegar à estrada conclusão de que se trata de uma enorme coleção de lutas que nunca chegaram a encontrar seu verdadeiro objetivo: a emancipação.

            Seria a opressão tão antiga como o musgo nos lagos, ninguém pode evitar o musgo nos lagos, ainda canta Brecht. Seria o livro de Beer apenas nossa vingança ao afirmar que, se sempre houve opressão, sempre houve aqueles que contra ela lutaram? Acreditamos que é muito mais que isso, pois dessa forma estaríamos diante da velha armadilha do sempre foi assim e sempre será.

            Dois mecanismos dever ser utilizados aqui para compreensão dessas lutas históricas. O primeiro é que cada período histórico particular da sociedade de classes encontrou mediações específicas por onde operaram os conflitos, a opressão e as resistências, e que é possível compreende-los, sem que percam sua especificidade, como parte de uma totalidade que o movimento da história nos permite compreende melhor e mais profundamente do que pela simples análise de cada parte. Segundo, e fundamental, que esse movimento nos revela o caráter dialético dessa totalidade histórica, ou seja, o eterno movimento das formas que se superam através do movimento de suas contradições, de saltos de qualidade, de unidade e de identidade de contrários, de negações de negações. Assim, mesmo que tributário de certa linearidade, o texto de Beer acaba se convertendo em matéria-prima de uma reflexão dialética.

            É essa aproximação que permite que entenderemos a real particularidade das lutas sociais no século 20 e suas perspectivas para o século 21. Marx, em seu 18 Brumário de Luis Bonaparte, dizia que as revoluções proletárias parecem se deixar derrubar apenas para retirar do chão mais força, para aprender com seus erros, apenas para impiedosamente se criticar até que nenhum recuo seja possível e todas as condições gritarem pela superação da ordem capitalista mundial. Ali, na história que Beer nos conta, estão os nossos erros, e temos de acrescentar alguns muitos importantes que cometemos depois, estão às lágrimas de nosso aprendizado, o sangue que nos custou, mas também a ousadia e a coragem, a bravura e o inconformismo daqueles que lutaram daqueles que assaltaram os céus e fizeram tremer sobre os poderosos.

            O comandante Ernesto Che Guevara incluía entre as condições subjetivas da revolução uma que considerava essencial: a consciência da possibilidade da vitória. Che dizia que a ação dos revolucionários,quando atacam as classes dominantes e a faze sentir o golpe, funciona na consciência dos trabalhadores como um salto de qualidade, pois essa consciência passa a questionar o que lhe parecia inevitável, o domínio dos poderosos, a inevitabilidade da opressão. O livro de Beer é uma poderosa contribuição à formação dessa consciência da possibilidade da vitória, pois nos conta que muitos já lutaram e nos acrescenta um sentimento de pertencimento que vai muito além de nossas vidas particulares, de nossos tempos mesquinhos e prepotentes, que nos irmana numa identidade de classe que atualiza a possibilidade de nossa emancipação.

            Dessa forma, estaremos mais que lendo um livro: talvez possamos nos permitir acreditar que ainda o estamos escrevendo, com nossas próprias lutas, com nossos erros e nosso inconformismo revolucionário para que o socialismo seja mais que uma história, mas uma opção aberta ao futuro.

            E já que começamos com Brecht, lembremos mais uma vez suas palavras que nos alerta: “Em tempos de humanidade desumanizada, de desordem sanguenta, nada deve parecer natural, porque nada deve parecer impossível de ser mudado”.

 

Mauro Luiz Iasi

Dezembro de 2005

Uma resposta a Textos e Documentos

  1. filipe damasceno diz:

    valeu galera… parabéns ai pelo blog do nosso coletivo ;D
    hehehehe
    abração ai p/ todos

    ps.: entrem em contato

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